Se isso acontece com a memória individual, por que seria diferente com a memória de uma sociedade? Também os povos constroem interpretações sobre o próprio passado, escolhem o que merece ser lembrado, o que será silenciado e quais acontecimentos se tornarão símbolos de uma época. E a maneira como contamos nossa história coletiva molda nossa identidade e influencia a forma como compreendemos o presente.
É justamente nesse ponto que a literatura deixa de ser apenas uma manifestação artística para se tornar um espaço privilegiado de preservação da experiência humana e do conhecimento produzido.
Foi impossível não pensar nisso ao terminar a leitura de Esaú e Jacó, de Machado de Assis. Um romance primoroso, tanto pela refinada arquitetura de sua escrita quanto pela delicadeza com que revisita um dos períodos mais decisivos da história brasileira: a passagem do Império para a República. Embora esse acontecimento sirva de pano de fundo para a trama, Machado não pretende explicar a História como faria um historiador. Seu interesse parece ser outro: revelar como grandes transformações políticas atravessam a vida comum, moldando sentimentos, expectativas e conflitos que os documentos oficiais raramente conseguem registrar.
Essa impressão me levou, quase naturalmente, ao ensaio Verdade e Política, de Hannah Arendt. Nele, a filósofa distingue a verdade racional da verdade factual, aquela que diz respeito aos acontecimentos do mundo. Sua preocupação reside no fato de que essa verdade é particularmente frágil: ela depende da existência de pessoas dispostas a preservá-la e transmiti-la. Quando o discurso político tenta reduzir os fatos a simples opiniões ou substituí-los por versões mais convenientes, não está apenas mentindo. Está disputando a memória coletiva e, com ela, a própria compreensão da realidade.
É justamente a partir dessa reflexão que a literatura revela uma de suas funções mais profundas. Se a verdade dos acontecimentos pode ser manipulada, esquecida ou reescrita pelo poder, a ficção preserva uma dimensão que dificilmente cabe nos registros oficiais: a experiência humana. Ela conserva os medos, as esperanças, os dilemas morais, os silêncios e as ambiguidades de uma época. Enquanto a História procura responder ao que aconteceu, os grandes romances frequentemente nos ajudam a compreender como era viver aqueles acontecimentos.
É exatamente aí que reside a força de Esaú e Jacó. Machado de Assis não nos oferece apenas um retrato da transição entre dois regimes políticos. Ele nos convida a habitar aquele instante histórico, a experimentar as incertezas de um país que mudava suas instituições sem necessariamente transformar, na mesma velocidade, as estruturas da vida cotidiana. Sua ficção não substitui o trabalho do historiador; ela lhe devolve textura, profundidade e humanidade. Ao fazer isso, preserva uma verdade que não pertence apenas aos fatos, mas à experiência de quem os viveu.
Talvez, então, a pergunta inicial mereça uma pequena reformulação. Toda lembrança é, de fato, uma construção da memória. Mas algumas construções assumem uma responsabilidade ainda maior: impedir que a experiência humana desapareça sob o peso do esquecimento ou da manipulação. Talvez seja essa uma das razões pelas quais continuamos lendo narrativas escritas há milênios. Elas não apenas contam histórias. Tornam-se uma espécie de memória viva da humanidade, preservando mundos que um dia existiram e permitindo que continuem dialogando com o nosso presente.
G. P. Silva Rumin

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