Há
livros que terminam quando viramos a última página. Outros, porém, parecem
apenas começar ali. Fechamos o volume, colocamos de volta na estante, seguimos
com nossa rotina, mas alguma coisa permanece reverberando no fundo da mente e
ecoando em nossas emoções. Uma frase reaparece durante o dia; uma cena insiste
em voltar à memória; um personagem surge inesperadamente enquanto lavamos a louça
ou dirigimos para o trabalho.
Foi
exatamente essa sensação, a de uma inquietante presença constante, que me tomou
após concluir o segundo volume da tetralogia napolitana, de Elena Ferrante, História
do Novo Sobrenome.
Curiosamente,
não senti a ansiedade de começar imediatamente o próximo livro. Minha
necessidade foi outra: pausar. Não porque a leitura fosse cansativa ou a
história difícil. Pelo contrário. A intensidade da narrativa foi quase
excessiva em seu encanto. Da mesma forma que acontece depois de vivenciarmos um
episódio profundamente transformador ou de uma longa conversa que continua ressoando
dentro de nós, percebi que precisava de algum distanciamento para compreender
tudo o que aquele romance havia despertado em mim.
Foi
então que me fiz uma pergunta: por que algumas histórias nos impactam tanto a
ponto de nunca nos deixarem? Talvez a resposta esteja no fato de que certos
romances não apenas contam uma história; eles nos convidam a habitar um mundo.
Durante
a leitura de A Amiga Genial e História do Novo Sobrenome,
deixei de acompanhar apenas os acontecimentos da vida de Lenu e Lila. De alguma
forma, passei a viver naquele bairro popular de Nápoles, entre suas ruas
estreitas, suas famílias marcadas pela violência, seus afetos contraditórios,
suas esperanças e frustrações. O cenário deixou de ser apenas o pano de fundo
de uma narrativa psicologicamente densa. Ele respira, ganha textura, cheiro,
memória. Torna-se um lugar que também habitamos.
Acredito
que essa ligação entre o leitor e a história se deva, em grande parte, à
escrita de Elena Ferrante. Costuma-se dizer que um texto é poético quando
utiliza belas imagens ou metáforas sofisticadas. Ferrante ultrapassa essa
definição. Sua escrita, além de construir imagens memoráveis, é poética porque
consegue dar linguagem ao que normalmente sentimos, mas não conseguimos
explicar. Ela nomeia e descreve, com impressionante precisão, emoções ambíguas,
ressentimentos discretos, pequenas humilhações, alegrias quase imperceptíveis e
inseguranças que muitas vezes escondemos até de nós mesmos.
Há
escritores extraordinários na descrição do mundo exterior. Ferrante parece
interessar-se, sobretudo, pelo mundo interior das pessoas enquanto a vida
acontece ao redor delas. E essa espécie de magia, construída pelo modo como ela
maneja a linguagem, transforma Lenu e Lila em seres de carne, osso, sangue,
suor, lágrimas e sorrisos.
Nenhuma
delas foi criada para ser admirada o tempo todo. Não há, entre elas, a divisão
confortável entre heroína e vilã. Ambas são profundamente contraditórias.
Competem e se protegem. Amam-se e invejam-se. Aproximam-se e afastam-se. Ferem
uma à outra e, ao mesmo tempo, parecem incapazes de existir completamente
separadas. Essa complexidade produz no leitor um poderoso efeito de
identificação, porque não encontramos ali personagens exemplares, mas pessoas.
E
talvez seja exatamente isso que torne algumas narrativas inesquecíveis. Não nos
reconhecemos nos extremos dos personagens perfeitamente virtuosos, tão pouco nos
vilões absolutamente perversos. Reconhecemo-nos nas contradições: na
insegurança de quem deseja ser visto e amado; na culpa por amar e sentir raiva
ao mesmo tempo; no orgulho que nos impede de ceder; no medo da perda que nos
faz ceder além do necessário; na inveja que nos envergonha; na admiração que se
mistura ao temor de sermos ofuscados.
Quanto
mais humano é um personagem, menos ele permanece preso às páginas do livro e
mais passa a habitar nossa própria memória. A psicologia oferece uma explicação
interessante para esse fenômeno. Quando lemos ficção, nosso cérebro não
acompanha apenas uma sequência de acontecimentos. Ele simula experiências.
Assim, experimentamos emoções, ensaiamos decisões, sofremos perdas, criamos
vínculos e observamos o mundo pelos olhos de outra pessoa. Em certo sentido,
vivemos uma vida que não é nossa, mas que, por algumas horas, passa a integrar
a nossa experiência.
A
literatura amplia nossa memória emocional e cognitiva, acrescentando
experiências fictícias ao repertório da existência. Depois de um grande
romance, carregamos lembranças de acontecimentos que jamais vivemos, mas que
passam a influenciar a maneira como compreendemos o ser humano e o mundo.
Talvez seja por isso que alguns livros continuem acontecendo muito depois de
terminada a leitura.
Ainda
pretendo ler os dois volumes restantes da tetralogia napolitana. Mas, por
enquanto, escolhi interromper a jornada por alguns dias. Não porque a narrativa
tenha perdido força. Ao contrário. Ela teve força suficiente para exigir
silêncio. Alguns livros pedem apenas tempo. Outros pedem elaboração.
Talvez
seja essa a maior prova de que uma obra literária cumpriu seu papel: quando
deixamos de carregar apenas a lembrança da história e passamos a carregar um
pouco da vida de seus personagens dentro de nós. Porque os grandes livros não
terminam na última página. Eles continuam escrevendo, em silêncio, novas linhas
na história de quem os leu.
G. P. Silva Rumin



