Há algum tempo, assisti a um vídeo no TikTok em que um criador de conteúdo mostrava a capa dos sessenta livros que havia lido desde o início do ano. O que me chamou a atenção não foi apenas a quantidade, mas a maneira como aquela informação parecia funcionar como uma espécie de indicador de desempenho. A pergunta que veio à minha mente não foi sobre os títulos lidos ou sobre o que aquelas leituras haviam provocado no influenciador, mas sobre como alguém conseguiria ler e compreender tantos livros em tão pouco tempo.
Talvez essa seja uma das reflexões mais importantes que devemos fazer sobre os tempos atuais, em que tudo parece ser medido pelo critério da velocidade. É inegável que o desenvolvimento tecnológico nos proporcionou ferramentas extraordinárias para economizar tempo, mas também é forçoso reconhecer que essa velocidade acabou se transformando em um critério para definir competência e status. Uma tarefa é considerada bem executada quando realizada rapidamente; uma resposta imediata aparenta eficiência; uma pessoa capaz de desempenhar múltiplas funções é vista como produtiva e competente.
Mas essa visão tem ultrapassado os limites das relações de trabalho e invadido outras esferas do agir humano. Estamos nos forçando a estudar, aprender, ler, resolver conflitos e até descansar apressadamente, tudo impulsionado pela lógica da competição que a vida nas redes sociais estimula. Quando vemos alguém mostrar em seu status a leitura de dez livros, somos tomados pela sensação de que estamos ficando para trás; quando assistimos a vídeos de pessoas exibindo uma conciliação possível entre carreira, exercícios, viagens, estudos e vida social, imediatamente podemos ser tomados pela sensação de ineficiência.
O problema é que existem atividades que não podem ser aceleradas sem que alguma coisa essencial seja perdida. O aprendizado, por exemplo, não acontece apenas porque conseguimos consumir mais informações em menos tempo, assim como ler não significa simplesmente chegar ao final de um livro. Existe uma diferença crucial entre consumir e assimilar, e a dificuldade de reconhecer essa diferença acaba comprometendo nossa capacidade de interpretação, não somente de textos, mas também de contextos.
E aqui voltamos à reflexão sobre a história do influenciador que leu sessenta livros desde o início do ano. Um texto não é apenas aquilo que suas palavras dizem isoladamente. Existe contexto, ironia, referência, ambiguidade e intenção. Algumas frases precisam ser relidas; determinadas ideias só podem ser compreendidas quando sabemos o que veio antes. E a literatura, particularmente, exige essa disposição para permanecer diante de algo que não se revela imediatamente. Quando a velocidade passa a ser o principal critério de consumo, porém, essa característica da literatura pode se tornar um obstáculo: textos mais complexos exigem maior dedicação, enquanto conteúdos fragmentados e de assimilação rápida parecem se adequar melhor ao ritmo que incorporamos ao cotidiano.
A consequência é um círculo que se retroalimenta, pois quanto mais nos habituamos a consumir conteúdos rápidos e de baixa complexidade, menor pode se tornar nossa disposição para enfrentar textos que exigem concentração, interpretação e reflexão. Ao mesmo tempo, quanto mais valorizamos aquilo que pode ser consumido rapidamente, maior se torna a demanda por conteúdos que atendam a essa expectativa. A velocidade deixa, assim, de ser apenas uma característica do modo como consumimos informação e passa a influenciar aquilo que esperamos encontrar quando lemos.
É justamente por isso que a pergunta que fiz diante daquele vídeo não deveria ser quantos livros alguém consegue ler em um ano, mas o que acontece com aquilo que lemos depois que fechamos o livro. Não há nada de errado em ler sessenta livros, assim como não há mérito ou demérito em ler apenas dez. A quantidade pode ser um dado interessante, mas não revela aquilo que realmente importa: o quanto compreendemos, refletimos e fomos transformados por aquilo que lemos. O aprendizado não é uma atividade que possa ser mensurada exclusivamente pela quantidade de informações acumuladas ou pela velocidade com que conseguimos consumi-las.
Precisamos, portanto, estabelecer algum limite para essa lógica de aceleração. Nem tudo precisa ser feito depressa, e algumas das experiências mais importantes da vida dependem justamente do tempo que estamos dispostos a dedicar a elas. Ler exige tempo para interpretar; estudar, para assimilar; e até mesmo o lazer perde parte de seu sentido quando passa a ser encarado como mais uma atividade que precisa ser otimizada. Há experiências que não precisam produzir, ensinar ou gerar resultados imediatos. Algumas simplesmente precisam ser vividas.
O verdadeiro preço da velocidade pode estar justamente na ilusão de que aproveitamos melhor o tempo quando apenas passamos mais rapidamente por ele. Desacelerar, em uma época que transformou a pressa em sinônimo de eficiência, não significa tornar-se ultrapassado. Antes de tudo, significa recuperar a capacidade de prestar atenção e de refletir e compreender antes de reagir.
G. P. Silva Rumin

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