Nossa identidade não é construída de uma vez e depois preservada intacta; ela se forma continuamente no contato com o mundo, nas relações que estabelecemos, nos ambientes que frequentamos e nas diferentes esferas sociais pelas quais transitamos ao longo da vida. Somos atravessados, a todo momento, por novas experiências, ideias, valores e perspectivas, e cada uma delas participa, em maior ou menor medida, daquilo que nos tornamos. Viver é, portanto, estar em permanente transformação.
A contradição está no fato de que,
embora nossa formação seja dinâmica, existe uma expectativa social de que
mantenhamos uma certa integridade. Talvez seja justamente por isso que mudar de
ideia nos pareça tão difícil. Algumas opiniões, princípios e modos de agir
deixam de ocupar o lugar de simples convicções e passam a integrar a própria
imagem que construímos de nós mesmos, tornando-se referências por meio das
quais nos reconhecemos e nos fazemos reconhecer pelos outros. Mudar, dentro
desta perspectiva, adquire uma dimensão que ultrapassa a simples revisão de uma
ideia e se aproxima de uma verdadeira ruptura com a pessoa que acreditávamos
ser.
Mas é preciso distinguir a incoerência da transformação. Ao longo da vida, mudamos porque somos expostos a novas experiências, adquirimos conhecimentos que antes não possuíamos e passamos a enxergar de outra maneira aquilo que anteriormente nos parecia evidente. Essa transformação pode decorrer do reconhecimento de um erro, mas também pode simplesmente resultar do amadurecimento proporcionado pelo tempo e pelas circunstâncias que atravessamos. Esperar que alguém permaneça exatamente a mesma pessoa, sempre, em nome de uma suposta coerência, significa ignorar o poder da experiência como elemento de formação. Mudar, nesse sentido, não representa necessariamente uma ruptura com aquilo que fomos, mas uma consequência legítima do próprio processo de nos tornarmos quem somos.
É justamente nesse ponto que precisamos rever o significado de coerência. Se somos constituídos por nossas experiências ao longo da vida, ser coerente não pode significar conservar intactas as mesmas ideias e posições. Em tempos marcados pela fluidez e pela transformação, talvez a coerência esteja na disposição para continuar aprendendo, para continuar desenvolvendo o pensamento crítico e, mais do que isso, no reconhecimento, com humildade, de que jamais saberemos tudo. Ser coerente, portanto, assume uma perspectiva de encarar como integridade a disposição de se abrir ao conhecimento do novo, mesmo quando isso exige rever a si mesmo.
É nesse sentido que Ozymandias retorna à
nossa reflexão. O rei quis eternizar a própria grandeza, mas tudo que restou
foram ruínas. Também nós podemos transformar nossas convicções em monumentos,
erguendo com elas uma imagem de quem somos e que não admite revisão.
Ao insistimos em defender nossas posições, mesmo diante de evidências que as contradizem, deixamos de exercer a capacidade crítica que deveria orientar nossa condição humana e nos tornamos prisioneiros das próprias certezas, mais comprometidos com a preservação de nossa imagem do que com a compreensão da realidade.
Em tempos de polarização, discursos inflamados e convicções frequentemente sustentadas mais pela força da repetição do que pela solidez dos argumentos, talvez precisemos reconhecer, humildemente, o Ozymandias que existe em cada um de nós. A coragem de mudar de ideia está justamente em aceitar que nossas convicções não são eternas e admitem contestação. Afinal, se até reis poderosos descobriram que não podiam impor sua grandeza ao tempo, por que haveríamos de exigir que nossas opiniões fossem poupadas da realidade?
G. P. Silva Rumin
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